Só as mães sabem bater um carro de forma elegante

Fiz merda. Bati na traseira de um carro parado. Mas foi com classe.

Esqueçam aquela cena deselegante de uma família cheia de filhos chorando no carro, remelas e narizes escorrendo, um irmão puxa o cabelo do outro, que grita desesperado, pernas pro alto, bolinhas de papel voando, desespero, tapas sobrando para a motorista, vira a mãe já descontrolada e manda todo mundo calar a boca porque se não ela vai bater o carro ou bater nos moleques.

Não. Nada disso.

Era praticamente um dia de verão. O sol brilhava e o mundo parecia propaganda institucional, belo e feliz. Luisinho dormia tranquilamente na sonífera cadeirinha do carro enquanto voltávamos de um brunch dominical (coisa chic). Eu ia dirigindo vagarosamente, prudentemente, num trânsito bem lento, a uns 20 km por hora na Oscar Freire (tô dizendo que tava chic). Quando de repente acontece o inesperado: a cabeça do bebê pende pra frente e ele solta um grunidinho esquisito (e logo volta a dormir). Eu, assustada, mãe, olhei para trás. E aí o trânsito parou e eu não vi e póf no carro da frente. Mas um grande “póf”. Uma cacetada de respeito.

Passo alguns segundos encarando o porta-malas do carro da frente, sem reação. Não parecia ter amassado nada. O motorista vai descer? Não vai? Eu desço, espero pra ver se ele desce, #comofaz? Desceu. Vamos lá. Ligo o pisca-alerta e saio do carro pra falar com ele, mas antes dou a volta por trás e pego o bebê, que mesmo com o póf de responsa, continua dormindo. Fui lá com o bebê no colo, elegantemente pedir desculpas pro cara do outro carro.

E aí dei a grande sorte de encontrar um dos 2% de motoristas educados de São Paulo. Não sei se foi o anjinho dormindo no meu colo que é de intimidar encantar qualquer um, mas o cara foi simpático e compreensivo. Anotou meu celular, eu anotei o dele, pedi desculpas mais umas 57 vezes, ele disse um cordial “tudo bem, isso acontece”. Ficamos de nos falar durante a semana para ver se ia precisar mesmo de conserto (o porta-malas dele ficou meio ruim pra fechar). Pronto, acidentes acontecem, somos pessoas civilizadas, tudo será resolvido. Viu? Classe.

[Intervenção de sinceridade demandada pela minha consciência: fiquei apavorada. Morri de medo, tremi. Me senti culpada mil vezes. Como diabos eu não sei que não posso olhar pra trás no meio do trânsito? Quantas vezes eu já fiz isso e me arrependi em seguida, vi que podia ter batido o carro sério, que a coisa podia ter sido grave? Que tipo de mãe inexperiente faz uma bobagem dessas e coloca a segurança do filho em risco? E coitado do outro motorista que não tinha nada a ver com isso e deve ter ficado enraivecido! Ainda bem que eu tinha um bebê adormecido para usar no colo como escudo para minha vergonha]

Mas o que fechou mesmo com chave de ouro a elegância da história foi o boletim de ocorrência registrado pelo meu elegante marido:

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