Tenho ouvido a mesma pergunta de muita gente. Ou, na verdade, a mesma reclamação. “Outro dia fui num restaurante e na mesa ao lado, os pais nem ligavam pras crianças. Passaram o almoço inteiro brincando no iPad (ou outro tablet ou celular equivalente) enquanto os adultos conversavam, sem nem olhar pra elas”. Contada assim, a história parece triste e os pais parecem uns negligentes. Bem na hora de ficar com a família eles deixam os filhos com o iPad fazendo as vezes de babá? Tsc, tsc, tsc. Pais horríveis.
Bom, mas peraí. Antes de falar mal da família da mesa ao lado, vamos tentar imaginar que tipo de gente eles realmente são, tentando imaginar como foi o dia deles. Pode ter sido de mil formas, mas eu vou sugerir apenas duas. Vamos tomar um sábado como exemplo.
Opção 1 – As crianças acordam lá pelas 10h da manhã, daí acordam os pais, que falam alguma coisa mal humorada e dizem pra elas irem assistir TV e voltam pra cama. Ao meio-dia, papai e mamãe levantam igualmente mal-humorados (será que encheram a cara no dia anterior?), jogam uma água na cara, mandam os filhos se arrumarem e já vão saindo pro restaurante. Não sem antes colocar o iPad na bolsa. Afinal, eles terão que dar um jeito de silenciar os filhos durante o almoço inteiro. Arf. Viva o iPad!
Opção 2 – As crianças acordam às 7h da manhã e correm para a cama dos pais. Lá, começa a bagunça: papai e mamãe acordam dando abraços e beijos nos filhos, e pulam com eles pela cama, brincando de esconderijo com o lençol, fazendo cosquinhas em quem merece e dando muitas risadas. Depois, todos se reunem na sala para um delicioso café da manhã em família preparado pela mamãe. Durante o café, eles contam os sonhos que tiveram uns pros outros e fazem planos para o dia gostoso que terão. E aí, papai vai lavar toda a louça com a ajuda das crianças, que continuam a brincadeira na pia da cozinha, espalhando água para todo lado. Como essa família é feliz mas nós não estamos num comercial de margarina, talvez mamãe veja o chão todo molhado e se irrite um pouco, exigindo que as crianças limpem o piso depois da brincadeira. Depois, mãe e pai correm para se arrumar e arrumar os filhos para sair para uma deliciosa manhã no parque. Como estamos falando de uma família normal, dá para imaginar que eles demoram mais de 1 hora para conseguir escovar os dentes, calçar os sapatos de todo mundo, limpar toda a bagunça da sala e arrumar as mochilas para o passeio. Chegando no parque, são pelo menos mais 2 horas de brincadeiras, andar de bicicleta, correr, rolar na grama, brincar com areia e terra e comentar sobre quase todas as raças de quase todos os cachorros que passam perto das crianças. Papai leva o filho maior para ver as pipas e explica tudo sobre como os objetos aerodinâmicos conseguem voar. Mamãe aproveita para fazer exercício pedalando com o filho menor na cadeirinha na bicicleta e os dois vão contando histórias um pro outro durante todo o caminho. Depois, exaustos, todos tomam uma água de côco e se despedem do parque. Já é hora de sair para o almoço. No restaurante, mamãe resolve tirar o iPad de dentro da bolsa e dá para os filhos brincarem um pouco. É hora de aproveitar para conversar um pouco sobre coisas de adulto com o papai. As crianças passam meia-hora concentradas em seu joguinho preferido (que é divertido e educativo, provavelmente) e os pais podem comer sossegados, mastigar devagar e ainda conseguem namorar um pouquinho. Perfeito. Viva o iPad!
E aí, agora que você sabe o que a família da opção 2 fez antes de chegar àquele restaurante e colocar um iPad nas mãos dos filhos, simpatiza mais com eles?
Então vamos parar de encher o saco das pobres famílias com iPads, certo? Obrigada.
Eu não posso dizer que eu não julgo as pessoas da mesa ao lado (é claro que eu também faço isso de vez em quando). Mas se paro para pensar no assunto de verdade, só acho o iPad seja um problema quando está no contexto da família número 1. Como eu não sei que família é aquela e o quanto aqueles pais estão cansados, nada de julgar. Despregado de qualquer contexto, acho o iPad uma ótima babá. Sério mesmo. Tem vários apps divertidos, educativos, estimulantes, inteligentes. Coisa que eu adoraria ter tido na minha infância (infelizmente eu não tive um gameboy, no máximo aqueles joguinhos de Tetris portáteis, importados do Paraguai). É claro que nenhum desses gadgets – não importa o quão divertido ele seja – deve ser a única companhia de uma criança por muito tempo. Mas sério, durante um almoço, durante um jantar, uma horinha aqui, outra meia-horinha ali, não vai fazer nenhum mal. Pelo contrário. Muito melhor isso do que o “cala boca menina, que agora é assunto de adulto!” que a gente ouvia os pais falarem alguns anos atrás. E pô, ver a criança brincando ali naquela hora com um computadorzinho não quer dizer que ela faça só isso. É claro que o ideal é que os pais brinquem com o iPad (e outros gadgets) JUNTO com a criança. Mas se não dá, ou se ele está cansado, precisando de um tempo para si próprio, não vejo nada de mal em deixar a criança jogar sozinha um pouco (se o jogo for adequado para a idade dela, claaaaro).
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Quem tem filhos e cuida deles pra valer – sem ajuda 24/7 de uma babá de carne e osso – sabe como pode ser cansativo ter todos aqueles cuidados e inventar brincadeiras o dia inteiro. Chega uma hora que você simplesmente precisa que a criança se distraia para fazer alguma coisa em casa, ter um tempo para você ou conseguir conversar com alguém sossegado. Pais também tem direito a isso, oras. É saudável e bom para a criança também, que não vai correr o risco de ter um pai/mãe ranzinza e cansado. Mas é redundante falar isso nesse blog. Quem tem filho já sabe disso. Por isso eu desconfio que a maior parte das pessoas que reclamam da família na mesa ao lado com o iPad são solteiros e sem filhos.
Eu brinco muito com o meu filho. Tenho o privilégio de ter bastante tempo com ele e nos divertimos de várias formas diferentes. Nem para assistir TV eu costumo deixá-lo sozinho – sento e assisto junto, comentando os desenhos. Por isso não me sinto nem um pouco culpada nos momentos em que eu empresto meu iPad pra ele rezando para que se distraia um pouquinho. É claro que não precisa ser só o iPad – ele pode se distrair sozinho com brinquedos de montar, um livrinho ou um fazendo um desenho com giz de cêra. O iPad é só mais um dentre vários brinquedos legais que a gente tem. Na verdade mesmo, o Luisinho ainda não se distrai tanto com o iPad. Talvez por ser muito novinho, o máximo que se concentra são uns 15 ou 20 minutos, mas sempre pede minha ajuda nos joguinhos ou fica querendo me mostrar o que aconteceu com o personagem. E aí eu me pego de vez em quando insistindo para que ele brinque um pouquinho mais “olha sóóóó que legal esse personagem aqui, ó! Aperta aí, vaaaaai!”. O que ele quer geralmente é sair correndo e brincar de esconde-esconde. Ou subir e pular de algum lugar bem alto. Inclusive durante almoços em restaurantes.
E aliás, é graças à existência do tablet, do smartphone e de outros gadgets que eu posso passar tanto tempo com o meu filho. Só assim posso sentar do lado dele no chão enquanto brincamos em seu quartinho cheio de brinquedos espalhados pelo chão e responder meus e-mails. Ou fazer qualquer coisa urgente que, caso o meu iPad não existisse, eu teria que resolver em um escritório bem longe do meu filho, enquanto uma babá provalmente mal-humorada e contando as horas para ir embora finge que brinca lá com ele. E, bom, é claro que um iPad vai ser mais interessante para uma criança do que a maior parte das babás de carne e osso. Uma pesquisa do instuto Nilsen mostrou que, no ano passado, uma entre cada 3 crianças já queria ganhar um iPad de presente de Natal. Imagine agora.
Sei que é chato às vezes ficar respondendo e-mails enquanto ele está lá comigo. Mas é o jeito que dá. E eu prefiro que seja assim, perto dele, do que longe. Meu filho vai crescer vendo a mãe mandando uma mensagem ou escrevendo algum texto entre uma brincadeira e outra. Isso não tem jeito. O mundo se comunida assim agora. Mas vai crescer perto da mãe e não com uma babá ou passando o dia inteiro na escolinha.
Foi mais ou menos isso que o comediante americano Louis C.K. quis dizer nesse vídeo aí, que recebi ontem de um amigo. Está em inglês, mas em resumo, ele explica que as pessoas que fazem cara feia enquanto o vêem mandar um SMS quando está com a filha pequena não fazem ideia da conversa legal que eles tiveram antes disso e como foi aquele SMS que o possibilitou passar mais tempo com a filha.
É claro que continuamos com o problema de estabelecer limites e definir quanto tempo é OK passar concentrado no iPad enquanto seu filho está ali do lado, assim como quanto tempo é OK deixar o brinquedinho na mão da criança. Acho que tudo é uma questão de bom senso. Você pode querer seguir a recomendação da Academia Americana de Pediatria e restringir a exposição a telas a no máximo 2 horas por dia e a partir dos 2 anos. Ou você pode simplesmente usar o seu bom-senso e parar de se sentir culpado(a). Afinal, quem sabe o quanto aquela atividade é boa para você e para seu filho são vocês dois (você mais, hehe). E também o que você fez antes daquele momento na mesa do restaurante, e tudo o que vai fazer depois…





