*Post escrito para o site Jezebel

Garotinhas de 3 anos muito maquiadas. Mães patologicamente ansiosas. Filas de mais de 2 horas. Paredes revestidas com propagandas antigas estrelando modelos mirins. Caos. Chupetas. Choradeira.
O cenário era de uma agência de modelos infantil. Como fui parar lá? Gostaria de dizer que levada pela minha veia de repórter investigativa. Mas foi sem querer, depois de comprar um ensaio infantil em um site de compras coletivas. De R$ 480 por apenas R$ 17. Quando é que eu vou aprender a desconfiar dessas bagatelas?
Minha mãe sempre teve a brega admiração por aquelas fotos de família feitas em estúdio – e depois emolduradas em preto e branco na parede da sala. Como meu filho é um bebê de 1 ano e meio e ainda não foi tocado pela dor da vergonha (nem sua, nem alheia), pensei que seria uma boa ideia: posar para fotos com a vovó. De quebra, eu ainda ganharia um ótimo material de chantagem para quando ele for adolescente. Só vantagens.
Daí que o tal estúdio era também uma agência de casting de bebês para propagandas e afins. Hummm. Tudo bem. Vai que meu filho ainda sai na capa de alguma revista? Corujice de mãe detectada. Ah, como mãe é boba!
Pelo jeito os 96% de desconto renderam uma boa clientela. Foi preciso marcar com 2 meses de antecedência para conseguir um bom horário. Marquei estrategicamente para as 10h da manhã, horário em que meu filho não estaria irritado de sono ou fome. Quem tem filhos ou já se sentou ao lado de uma criança pequena no avião sabe: é mais fácil domar um pitbull com raiva.
Chega o dia marcado. Eu, minha mãe e meu bebê chegamos ao estúdio que fica em uma casa de um bairro nobre, perto do centro de São Paulo. De fora, parecia legal. De dentro, dava vontade de voltar para o lado de fora. Umas quase 10 crianças – e o dobro de mães, tias e avós – se engalfinhavam na sala de espera cheia de ursinhos de pelúcia e sofás igualmente surrados. Bem no alto de uma parede uma TV repetia clipes do Cocoricó. Penduradas em uma parede descascada, fitas métricas para medir as crianças. E por todo lado molduras com propagandas antigas – algumas do tempo em que criança podia pedir uma Caloi.
Mas bom, tínhamos crianças e brinquedos reunidos em uma sala. O que daria uma baguncinha legal em qualquer canto do mundo, não fosse o clima pesado de ansiedade das adultas ali. Logo descubro que muitas delas vieram de longe e estão naquela sala de espera há pelo menos 2 horas. Cara de cansaço parecia uniforme ali. Só mesmo um milagre ou muita maquiagem para encontrar uma mãe que não tenha olheiras profundas.
A recepcionista mais mal humorada do mundo veio a contragosto nos receber e me entrega uma prancheta com 2 fichas para preencher. No formulário, que pergunta até altura, peso e manequim do meu bebê, sou informada de que, caso ele passe em um teste de fotogenia, eu poderei pagar R$ 300 por um contrato de exclusividade de 1 ano com a agência ou R$ 350 para um contrato sem exclusividade. Que só serão (talvez) ressarcidos após o primeiro “trabalho da criança”. A frase equivale a longas unhas raspando um quadro negro de cima a baixo. Há tempos não via nada tão politicamente incorreto quanto estas três palavras na mesma frase, descontando os cartazes contra trabalho escravo internacional no aeroporto.
Bela forma de arrancar dinheiro de mamães sonhadoras. Algumas das crianças eram mesmo lindas. Outras, ahn… simpáticas. Logo descubro que a maioria estava lá para fazer casting mesmo. O que era de assustar. Ok que toda mãe acha que o seu filho é a coisa mais linda do mundo. Mas não é por isso que ele vai estrelar um comercial. Não vamos deixar o amor materno minar a nossa auto-crítica, ok? Dica: fazer um blog para colocar as fotos do seu filho.
Vamos voltar para a sala de espera: enquanto eu assinava os papéis com o mínimo de informações, minha mãe e meu bebê já tinham se enturmado. Ele brincava de bola com uma menina de 3 anos com o cabelo cheio de presilhas coloridas. Ela, conversava um pouco com outras mães. Entro no papo. Que só flui com uma outra mãe e avó de um bebê mais novo que o meu. Elas estavam ali pelo mesmo motivo que eu: fazer fotos com o bebê em estúdio sem ter que pagar muito por isso. Me contam que é para usar no convite de aniversário de 1 ano do pequeno. E que já estão cansadas de esperar pela sua vez no estúdio. Logo eu também ficaria.
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Com as outras mães é meio difícil puxar conversa. A motivação delas para estar ali é um pouco diferente. Estão visivelmente ansiosas e aproveitam cada brecha para venerar as incríveis capacidades do filho, mesmo para as outras mães. “Ele não está engatinhando agora, mas quando quer, engatinha suuuper bem”. “Dança filha, dança! Ela adora dançar. E também canta”.
De vez em quando alguma fotógrafa, produtora ou funcionária cruza a sala. Vejo uma japonesinha de uns 4 anos (que deve ser uma habitué) pular no colo de uma delas dizendo “Eu vou arrasar, né tia?”. E volta a brincar com as outras crianças. Muito fofo! Mas em poucos minutos, vejo a mãe podar a criança empolgada, dizendo “não se suje!” com a braveza uma mãe chinesa. Nada fofo.
Meia hora se passa. Uma hora. Uma hora e meia. O prazo de validade do meu bebê vence. Ele pula no meu colo e chora com fome e sono. Não quer mais saber de brincadeiras. Começa a ficar choroso e fazer birra. Não quer pão, não quer papinha, nada. Quer dormir. Quase adormece no meu colo. Mas logo desperta com o barulho das outras crianças.
A essas alturas eu já tinha perguntado umas 5 vezes se ainda ia demorar muito. Desisto de esperar e apenas anuncio para a recepcionista que vou embora e quero meu dinheiro de volta. Sim, todos os meus R$ 17. Ou o dobro, por danos morais. Uma produtora vem tentar me fazer mudar de ideia dizendo que vai passar meu bebê na frente.
Quando as outras mães que estão na sala de espera vêem que isso está prestes a acontecer, acontece uma rodada de baiana coletiva. Temi pela minha vida. Pelo menos duas mães se levantaram de suas cadeiras com as bocas espumando. “Vai passar na frente nada!”, grita a mãe da garotinha que meia hora atrás brincava contente com meu filho. “Está todo mundo aqui esperando desde cedo!”, grita outra, mãe de uma gordinha, emendando com um “agência de modelos infantil é assim mesmo, minha querida!”.
Tentei explicar a situação. Que eu tinha marcado horário, que meu filho era menor do que o delas, que eu não estava ali para fazer casting do meu filho, mas porque tinha comprado um ensaio em uma promoção. Falei à toa. Os ouvidos e coraçõezinhos delas estavam provavelmente entupidos com ódio e rancor. Por um segundo achei que a gordinha ensaiava um golpe de Krav Magá.
Antes que eu fosse linchada, uma produtora me chamou para conversar num escritório. Pensei em fugir pela janela. Mas a conversa foi legal: em um tom muito educado ela me pediu desculpas, explicou que era um dia atípico e que algumas mãe vinham mesmo de muito longe e ficavam muito nervosas. Me ofereceu um outro ensaio em um dia mais tranqüilo, na outra semana. Agradeci mas disse que não me interessava muito porque minha mãe voltaria para a cidade dela no dia seguinte. Mas que eu iria embora sem problemas.
A produtora então disse que fazia questão de que minhas fotos fossem feitas e explicaria a situação para as outras mães. E me escoltou rumo ao estúdio fotográfico. Entrei sem fazer contato visual com as outras mães.
É claro que o tal ensaio foi um horror. A estrutura do estúdio era bem simples. Um cubo branco no chão, um fundo branco e dois flashes. A câmera da fotógrafa era igualzinha à que eu tenho em casa, mas para a qual minha mãe se recusa a posar. O modelo também não ajudou: estava morrendo de sono e saiu chorando e de chupeta na maioria das fotos. Mesmo com o reconhecido esforço da produtora ao lado da câmera tentando fazer o pequeno sorrir com uma máscara de um bicho rosa. Daqui a 15 dias recebo meu CD com as fotos. Pro tal “teste de fotogenia” eu disse não. Mesmo que o meu filho fosse o bebê mais fotogênico do mundo – coisa que até o meu amor materno me permite ver que não é -, simplesmente não vale o esforço.
Saldo do dia: 3 horas perdidas de trabalho, semi-ameaças de morte, fotos da vovó segurando o netinho com cara de choro, cansado e com fome. Fui embora de lá com a frase da mãe da menina gordinha na cabeça: agência de modelos infantil é assim mesmo, minha querida!

