05 de março de 2012

Muito mais do que você precisa saber sobre amamentação

Achei o fundo do baú: esbarrei sem querer em uma matéria de exatos 20 anos atrás da Superinteressante sobre o leite materno.
Explica direitinho o processo fisiológico de fabricação do mamá e porque ele é tão bom. É da época em que o guaraná tinha rolha e a Super publicava extensos parágrafos repetindo coisas bonitas como “células lactófaras”. Leitura excencial para mães nerds que amamentam, amamentaram ou que estão prestes a fazê-lo.
Como é de outros tempos, tem algumas informações que não valem mais – tipo a de que “metade das mães deixa de amamentar no segundo mês, quando o ideal seria aos seis meses”. As pesquisas mais recentes mostram que 41% das brasileiras amamentam até o 6o mês. E o ideal também já passou desses 6 meses, que agora são considerados o mínimo.
Mas acredito que todo o resto ainda esteja valendo. Li muito sobre amamentação nos últimos 2 anos, e em nenhum lugar encontrei explicações tão detalhadas e interessantes sobre a fisiologia da coisa. Não responde perguntas práticas como “o que fazer para aumentar o leite?”. Mas conta coisas que você talvez nem tivesse pensado em perguntar. Tipo:
- Algumas mulheres que nunca tiveram filhos também podem amamentar. É só colocar um bebê para sugar-lhes os seios todos os dias, em intervalos regulares, durante uma ou duas semanas.
- No organismo do bebê, os micróbios transformam a lactose em vinagre.
- Só bebês amamentados com leite de vaca passam sede. É que a quantidade de minerais no leite de vaca faz com que a criança perca mais água para a digestão.

Lá vai:

Começo de vida saudável

Em escritos religiosos antigos, o leite humano era chamado de sangue branco, pois se acreditava que a mãe transferisse parte de seu fluido vital quando oferecia o seio ao filho recém nascido. Esta imagem de intercâmbio de vida foi reproduzida ao longo dos séculos, como neste quadro do pintor renascentista italiano Giorgione (1477-1510). Em alguns casos, esta idéia não chega a ser exagero.

Regina Prado, com Kátia Cardoso, do Rio de Janeiro

No instante em que se despede do ventre da mãe, o recém-nascido já intui que, em algum lugar, deve existir uma espécie de despensa repleta de quitutes para seu deleite exclusivo. Pois, de repente, ele se encontra privado das mordomias do útero onde, sem ter de fazer sinal de fome, recebia tranqüilamente as refeições. Ainda no tumulto da sala de parto, o bebê procura o maître, para garantir o primeiro bocado de comida. Se aproximado do seio materno, minutos depois de nascer, ele suga com convicção, feito qualquer filhote de mamífero. Notará, porém, que não é mais servido na mesa, como nos tempos de vida uterina, quando o cordão umbilical fazia as vezes de garçom: o sistema, a partir do nascimento, passa a ser self-service. Os seios da mãe, preparados durante nove meses pelos hormônios femininos estrógeno e progesterona, estavam mesmo aguardando para abrir suas portas.
Mal os lábios do bebê tocam os terminais nervosos do mamilo, um impulso elétrico vai até a hipófise da mulher — uma glândula na base do cérebro — e avisa, como uma campainha, que o freguês finalmente chegou. Sem perder tempo, a glândula derrama uma dose do hormônio chamado oxitocina que, de carona na circulação sangüínea, acaba chegando aos selos. Ali, a substância ordena que seja servida a primeira golada do leite materno. “Esse hormônio só atua em três momentos da vida da mulher: durante o ato sexual, no parto e na amamentação”, conta o pediatra José Martins Filho, vice-reitor da Unicamp, que estuda amamentação há mais de vinte dos seus 49 anos. Nas três situações, o hormônio provoca a contração das fibras uterinas. Ou seja, no caso do aleitamento, além de autorizar o início da mamada, a oxitocina ajuda o útero a ir retomando o volume original. Pois, para abrigar o feto durante a gestação, esse órgão teve de aumentar cerca de 1 000 vezes de tamanho.
Aliás, de certa maneira. Pode-se atribuir à ação do hormônio oxitocina um enorme equívoco, comum na época da escravidão, quando as negras faziam o papel de amas-de-leite, encarregadas de dar o peito aos bebês de seus senhores. As senhoras das casas-grandes, então, obrigavam suas escravas a alimentar primeiro as crianças brancas, seguras de que, assim, estariam roubando o leite mais forte para seus rebentos. Mas, por ironia, o que elas faziam era deixar a melhor parte do banquete para os bebês escravos, que tinham de mamar sempre em segundo lugar. A explicação é simples. No intervalo entre as mamadas, a hipófise do cérebro da mulher secreta outro hormônio, a prolactina, que dispara a produção leiteira pelas chamadas células lactófaras, aninhadas nas glândulas mamárias. Tais células lembram literalmente saquinhos de leite, dispostos lado a lado, ligados por finíssimos ductos, por onde escorre o líquido branco. Nas mamas, milhares delas formam alvéolos, parecidos com os ramos de uma árvore, que desembocam em ampolas — locais onde fica estocado o leite que já está pronto para consumo.
Esse reservatório, no entanto, contém apenas um terço do volume de leite que um bebê costuma mamar, em cada uma de suas refeições. Quando se esgota essa porção inicial, o restante do líquido continua no interior das células lactóforas e precisa ainda descer para as ampolas. Nessa situação de emergência, volta a entrar em ação aquele primeiro hormônio liberado pela hipófise, a oxitocina, que antes havia aberto as comportas da mama para o bebê se alimentar. Dessa segunda vez, porém, a ordem enviada pelo hormônio é espremer depressa as células lactófaras. Para isso, aciona o anel em volta delas, formado por minúsculas fibras musculares, que se contraem como a mão de quem ordenha uma vaca. Mas no caso, a pressão exercida por essas fibras é tão grande que rompe as rechonchudas células lactóforas. Por essa razão, o leite posterior — como é conhecido o líquido que vai repor o estoque das ampolas — carrega também uma série de organelas celulares, tornando-se até três vezes mais rico em proteínas. Ou seja, no caso das amas-de-leite, ao contrário do que imaginavam suas senhoras, os bebês negros ficavam com o melhor bocado, porque mamavam por último.
O curioso é que, às vezes, escravas que nunca tinham engravidado eram transformadas em amas-de-leite. Isso porque, algumas mulheres, ao colocarem um bebê para sugar-lhes os seios todos os dias, em intervalos regulares, podem estimular a hipófise a secretar os dois hormônios necessários para a produção do leite, depois de uma ou duas semanas. “No que diz respeito a esse jogo hormonal, existem relatos de que até avós puderam amamentar seus netos em lugar de suas filhas”, afirma o pediatra Martins, um entusiasta do aleitamento materno. Não falta motivo: coquetel branco oferecido pelas mães é invariavelmente um perfeito manjar. Os cientistas sabem, por exemplo, que o organismo materno chega a incluir mais proteínas na composição do leite, quando o bebê nasce prematuro — e, portanto, mais carente desses nutrientes. Ainda se desconhece, porém, os mecanismos desse fenômeno.Na realidade, cada ingrediente do leite materno entra na medida exata da necessidade da criança.

Durante o primeiro mês de vida, o bebê precisa de um alimento especial, sem muitas moléculas de sais, que sobrecarregariam os delicados rins; além disso, o intestino do recém-nascido precisa entrar nos eixos, expulsando algumas substâncias secretadas na gestação, para funcionar direito. É por isso que nos trinta dias iniciais do aleitamento, aproximadamente, a mulher produz o colostro, uma beberagem feita sob encomenda, cuja receita inigualável é a maior justificativa para que se esqueçam as mamadeiras com leite extraído de mães de outras espécies animais. Além de ajudar o intestino da criança a trabalhar, por ser um laxante suave, o colostro carrega, em média, vinte vezes mais imunoglobulinas A (IgA) do que o leite que será produzido pela mãe nos meses seguintes. Essas imunoglobulinas transformam a bebida numa vacina, pois nada mais são do que anticorpos, moléculas fabricadas pelo sistema imunológico no sangue da mulher, para atacar germes diversos. Herdadas da mãe, as moléculas de imunoglobulinas se alojam nas mucosas respiratórias e no tubo digestivo da criança, feito guardiãs, para proteger o organismo indefeso contra invasores atrevidos, como vírus e bactérias.No colostro também existem fatores bífidos, como são conhecidos certos açúcares, que possuem moléculas de nitrogênio em sua fórmula. “Essas substancial, que não estão presentes no leite de vaca, estimulam o crescimento de lactobacilos, microorganismos importantes para o bom funcionamento do intestino”, explica a nutricionista Eliete Tudisco, da Escola Paulista de Medicina, outra ferrenha militante do aleitamento materno. “Os micróbios conseguem a proeza de transformar determinada molécula do leite, a lactose, em dois tipos de ácidos — o lático e o acético, que nada mais é do que vinagre”, conta a cientista. “Graças à acidez resultante no intestino do bebê, a sobrevivência de bactérias nocivas se torna impossível.”Cercada no consultório por fofos de mulheres amamentando, Eliete lembra que o colostro tem ainda diversos glóbulos brancos do sangue materno.

“Essas células de defesa possuem uma espécie de memória a respeito das doenças que a mãe já teve. Dessa maneira, a estratégia de guerra contra muitos agentes invasores já vem revelada para o recém – nascido que mama no peito.” As proteínas também são especialmente dosadas para o pequeno freguês. Ao se comparar o leite humano com o de vaca, nota-se que têm a mesma quantidade de gorduras. No entanto, a bebida preparada pelos selos da mulher carrega mais moléculas de lipase proteína que ajuda a quebrar as moléculas gordurosas em pedaços menores, que o bebê digere mais fácil. O destino da gordura é o cérebro. Ali, forma a capa esbranquiçada de mielina, que reveste os neurônios, por onde passam os impulsos elétricos — é tudo o que falta para o sistema nervoso amadurecer.Poucas situações são capazes de secar a fonte desse coquetel perfeito — e, quando acontece, o estresse costuma ser o grande culpado. Afinal, das glândulas supra-renais de uma pessoa estressada jorra uma grande quantidade do hormônio adrenalina, que alguns cientistas apontam ser capaz de inibir a síntese de utra substância, a prolactina —a responsável pela linha de produção do leite humano. “Apenas cinco em cada cem mulheres não podem amamentar por problemas físicos” garante o pediatra José Martins Filho, que é capaz de ficar horas convencendo uma mãe a amamentar o filho. Esse empenho nasceu no Centro Internacional da lnfância. em Paris, onde fez doutorado, há mais de duas décadas. A partir de então, o médico se preocupa em divulgar as pesquisas que viu por lá sobre o aleitamento materno, somando os resultados de trabalhos que ele próprio realizou, ao voltar ao Brasil.Segundo Martins, a mortalidade infantil no Terceiro Mundo está diretamente associada ao desmame precoce. No Brasil, sabe-se que metade das mães deixa de amamentar no segundo mês, quando o ideal seria aos seis meses. Sem a herança imunológica e submetidas a condições de higiene precárias, as crianças morrem por doenças que teriam condições de enfrentar, se tivessem sido alimentadas no peito.

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A amamentação é essencial para o bebê, mesmo quando a mãe é subnutrida, pois o leite humano mantém o padrão de qualidade, não importando as condições físicas da mulher que o produz. “O organismo feminino sempre privilegia a alimentação do filhote”, afirma Martins. De fato, para uma mãe amamentar bem, só a sua hidratação merece maiores cuidados, já que 87% do leite é composto de água. Ou seja, a mulher que bebe pouco líquido produz menos leite.Para os casos raros de mães que não podem amamentar, existe uma saída: os bancos de leite humano. O Instituto Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, que abriu suas portas em 1943, é o mais antigo deles no país. Ali, todos os meses, são recolhidos quase 400 litros de leite de mulheres voluntárias. “Antes éramos apenas uma leiteria humana para mulheres carentes”, compara o engenheiro de alimentos João Aprigio, que coordena o IFF. “Hoje, temos novas preocupações. Entre elas, a de ensinar as mulheres que trabalham a estocar o próprio leite.” Segundo Aprígio, as técnicas para manusear o leite humano também foram aprimoradas — é possível até transformá-lo em leite em pó. Sem contar que, agora, o leite recolhido pelo IFF pode ser pasteurizado. Essa medida serve para destruir o terrível HIV, vírus da Aids, que infelizmente se transmite ao bebê pelo leite de mães contaminadas.

Via láctea

A dança hormonal no organismo da mulher, responsável pela síntese do leite, obedece ao dono da festa: o bebê.

Quando os lábios do bebê tocam os seios matemos, comprimem e esvaziam verdadeiros reservatórios de leite as ampolas , além de disparar um sinal elétrico para a hipófise da mãe.A mensagem ordena a glândula cerebral hipófise a descarregar o hormônio oxitocina. Este, por sua vez, provoca a contração de um anel muscular em torno das células lactóforas, que produzem o leite, seguindo o comando da prolactina, um segundo hormônio secretado pela hipófise.Na realidade, enquanto persiste o aleitamento, a prolactina não pára de gotejar na circulação. Se a dosagem for muito alta, eventualmente esse hormônio pode impedir a ovulação da mãe: afinal, enquanto empenha suas energias para alimentar o filhote, uma nova gravidez pode atrapalhar.

Coquetel sob medida

Para o bebê humano, a receita do leite da mulher é incomparável

O conteúdo hídrico não é diferente, mas a grande quantidade de minerais no leite de vaca faz com que a criança perca mais água para a digestão. Por isso, somente bebês amamentados com leite bovino passam sede. Muita proteína sambem não absolve o leite de vaca. A caseira, que existe vinte vezes mais neste leite, provoca coágulos que o bebê não está preparado para digerir. Outra vantagem: no leite das mães também existe mais lipase, a enzima capaz de quebrar as moléculas de gordura em ácidos graxos livres, principal fonte de energia para os bebês.A maior concentração de minerais no leite de vaca não é vantagem. Este excesso de substâncias provoca sobrecarga dos rins do bebe e grande parte destes minerais se perde. Além disso, a vitamina C do leite de vaca, em quantidade bem menor que no humano, diminui ou desaparece quando o leite é aquecido. O excesso de cálcio do leite bovino também não alivia nada. O bebê não consegue absorver. A prova disso é que as crianças que foram amamentadas com leite humano dificilmente apresentam raquitismos, e não o contrário.