26 de junho de 2012

Afinal, as mulheres podem ou não ter tudo?


A matéria de capa da revita Atlantic está dando o que falar: no artigo “Why women still can’t have it all” (porque as mulheres ainda não podem ter tudo), a americana Anne-Marie Slaughter discorre ao mesmo tempo sobre sua experiência pessoal e o fato de que as mulheres ainda sofrem para conciliar filhos e carreira. Anne-Marie é uma dessas mulheres que sempre serviram de modelo para as mais jovens, que parecia conciliar belamente a maternidade com uma carreira brilhante. Professora de direito de Princeton, foi uma alta oficial da Casa Branca. Depois de anos de uma bem-sucedida carreira (que incluia um bom salário, viagens e entrevistas à TV), abandonou o barco para se dedicar à família. Seu filho de 14 anos já nem falava mais direito com ela.

Veja a linha fina do artigo:

É tempo de parar de nos auto-enganar, diz uma mulher que deixou uma posição de poder: as mulheres que conseguiram ser ao mesmo tempo mães e profissionais top são super-humanas, ricas ou empreendedoras. Se acreditarmos verdadeiramente em oportunidades iguais para todas as mulheres, aqui está o que precisa mudar.

E seguem então 70 mil caracteres de um delicioso texto em primeira pessoa, em que Anne-Marie conta sua história, dá sua opinião e contrapõe os principais argumentos de quem acha que é sim possível conciliar a carreira e a vida pessoal, “se você estiver realmente comprometida com o tabalho”, “se seu marido te apoiar”, “se você fizer as coisas ao tempo certo”. É um texto longo, mas se você for mulher ou mãe (nao necessariamente as duas coisas ao mesmo tempo) e souber ler em inglês, a leitura é obrigatória (ok, ou pelo menos você pode ler esse meu aqui). Acredito que já virou um marco do pós-feminismo: uma visão de alguém que chegou ao topo, 30 anos depois das Universidades americanas registrarem 50% de mulheres entre os formandos.

O artigo está provocando discussões ótimas na internet. Como essa aqui da Forbes, que começa criticando o título vendedor da matéria e explicando que não somos só nós que não podemos ter tudo: do jeito que as coisas andam, os homens também não (ou alguém aqui conhece algum pai moderno que abre mão de ver os filhos crescerem por causa do trabalho?). E essa entrevista que a autora deu à Dell’Antonia, do Motherlode, o blog de parenting do NYTimes (que é das melhores coisas que você pode ler na internet).

Eu não concordo com todos os argumentos dela. E para mim, o assunto em pauta não é só das mães, mas de qualquer um que um belo dia descobre que é humano e não nasceu só para trabalhar.

Eu acho que a minha geração – quem tem hoje entre 20 e 40 anos – já reconhece isso, de uma forma diferente da dela (que nasceu no final dos anos 50). Ter “it all” pra gente talvez tenha um significado diferente do que tem para eles. Mesmo sem ter filhos, é difícil trabalhar naquele dia em que você tem uma briga feia com a sua namorada ou quando seu pai está muito doente. Pra mim, o que esse op-ed diz na verdade é o seguinte: nós temos vida pessoal. Isso vale pra qualquer um que, mesmo sem ter filhos, gosta de chegar em casa e cozinhar, passear com o cachorro, encontrar os amigos, assistir ao seu seriado preferido ou qualquer outra coisa que o faça feliz – e que quem trabalha muito acaba tendo que deixar de lado. Ninguém quer trabalhar só para enriquecer o chefe. Ou você precisa muita da grana ou está atrás de algum tipo de realização pessoal. Eu já era frila muito antes de imaginar que eu teria um bebê – e recusei várias vagas de trabalho porque não me pareciam muito divertidas e interessantes. Esse ano, tive uma experiência de trabalhar em uma revista, contratada, durante 2 meses. Não deu certo e resolvi sair logo. Voltei a ser frila e, apesar da enorme vontade que eu tinha de que tivesse dado certo, não me arrependo nem um pouco da decisão.

Ok, isso não vale para quem trabalha mesmo só para pagar as contas no fim do mês e por causa do seguro saúde e FGTS. Mas quem pode se permitir um pouco mais e tem alguma ambição, procura uma realização pessoal no trabalho também –, e assim pulamos de um pra outro atrás daquele que nos valorize, seja divertido e nos faça crescer. Se não encontramos, ou empreendemos – o Mamatraca promove uma boa discussão sobre isso essa semana – ou vamos traçando nossos planos de dominar o mundo depois do expediente. Tem ainda gente ainda que não faz nenhuma dessas coisas e, não raro, acaba entrando em depressão ou vira aquele sujeito que só reclama da vida o tempo todo.

Talvez o que aconteça com as mulheres que são mães (e acho que cada vez mais com os pais também), é que os motivos para chutar o balde estão ali gritantes. Quando você tem filhos, a sua vida pessoal se torna muito importante. E fica fácil enxergar que ela é mais preciosa do que a firma. É claro que isso ainda acontece mais com mulheres. Vejo cada vez mais homens ficando em casa e cuidando dos filhos, mas eles ainda são minoria. A regra ainda é que são as mulheres que desistem da carreira. Por que isso acontece? Não sei, mas temo que a resposta seja um tanto quanto sexista. Se fizermos uma grande pesquisa, certamente cada uma vai dar um motivo diferente – “eu cuido melhor deles do que meu marido”, “ele ganha melhor” etc -. Eu gosto de culpar a licença-maternidade: depois de ficar de 4 a 6 meses em casa com o bebê, é realmente difícil voltar a dedicar 80% do tempo que você passa acordada à firma. Já os homens, que não costumam ter essa quebra de rotina, não se sentem tão tentados a chutar o balde. Em países como a Dinamarca e a Suécia, em que os pais também tem direito a uma licença grande para ficar com os filhos, desconfio que a coisa talvez mude um pouco de figura. Passar 6 meses se dedicando só à vida pessoal é algo que faz qualquer homem repensar a carreira também. Anne-Marie Slaughter cita lá que o numero de pessoas trabalhando mais de 50 horas por semana só tem crescido desde os anos 70. Isso vale para ambos os sexos. E eu desconfio que pouca gente deve estar contente com isso.

Algumas das coisas que todo mundo repete sobre mulheres no trabalho e os contra-argumentos de Anne-Marie. E os meus, logo em seguida.

“É possível se você estiver realmente comprometida com o trabalho”

Sheryl Sandberg (ex-C.O.O. do Facebook) diz: “As mulheres não estão chegando ao topo. De 190 chefes de Estado, só 9 são mulheres. De todas as pessoas em parlamentos pelo mundo, 13% são mulheres. No setor corporativo, a porcentagem de mulheres em cargos de chefia é de apenas 15, 16%”. Pode “falta de comprometimento” explicar plausivelmente esses números?

A resposta aqui é óbvia: claro que não. Vamos lá: cada um de nós aqui sabe o quanto se compromete com cada coisa que faz. A geração das nossas mães já provou lá atrás que as mulheres querem trabalhar e têm competência para isso. Mas nem sempre é simples assim. O nível de “comprometimento” para alguns trabalhos chega a ser sobrehumano. Em alguns momentos, simplesmente impossível. É claro que tudo depende do trabalho, do cargo ocupado e de como você se organiza. Mas em vários casos, mesmo que você ame o seu trabalho, que dê sangue por ele, é simplesmente complicado demais.

Tirando toda a questão emocional de lado (do apego aos filhos, de acompanhar o crescimento deles e tals) e indo para o lado prático, gosto muito de um dos argumentos que ela dá quando cita o que sua assistente diz: não dá para trabalhar 12 horas por dia se as escolas só funcionam durante 6. É exatamente o que acontece no Brasil. Os horários das escolinhas particulares são das 8h às 18h. E não, não encontrei nenhuma escola em São Paulo que vá até depois das 19h. Nenhuma em que você possa deixar a criança até mais tarde em dia de fechamento. Eu tenho a sorte de contar com um marido que trabalha em casa e podia pegar nosso filho todos os dias. Via de regra, eu chegava em casa e ele já estava dormindo, bem alimentado e de banho tomado. Mas e quem não tem marido com tempo disponível ou família por perto, faz como? Babá? Elas querem trabalhar no máximo 8 horas por dia, e estão certas. Afinal, os filhos delas costumam estudar em escolas públicas, que tem tempo mais reduzido ainda. Por tudo isso, ter filhos e trabalhar fora vai ficando cada vez mais complicado – e mais caro. Se você não é herdeiro de uma fortuna ou ama muito mesmo o seu trabalho, acaba não valendo a pena sair de casa rumo ao escritório todos os dias. Pai ou mãe precisam ficar com a responsabilidade da família. E aí o fato de ser na maioria das vezes as mulheres que assumem esse papel, pode ser por aqueles motivos que eu citei lá atrás. E, voltando mais ainda, lá pra discussão do meu primeiro parágrafo, não é à toa que as empresas que sempre ganham o topo das listas de melhores para se trabalhar, tentam deixar o ambiente de trabalho mais pessoal – jogue videogame, vá de pijama, leve seu cachorro com você. O que eu não entendo é porque em nenhuma delas dá para levar seu filho também, pelo menos de vez em quando (não deveria ser tão difícil assim: até loja de material de construção tem uma brinquedoteca em que eu posso deixar o meu filho, porque as empresas grandes não tem?).

Your ads will be inserted here by

Easy AdSense.

Please go to the plugin admin page to paste your ad code.

Agora, é importante lembrar também (e isso ela não fala) que só cuidar da vida pessoal pode não realizar muitas mulheres. Ter um trabalho, ter uma vida fora de casa, também é importante para manter a sanidade mental de qualquer um. E esse para mim é o ponto principal: ter um trabalho do qual você realmente goste, algo que te empolgue, que não deixe toda a felicidade para a vida pessoal. Afinal, depositar todas as suas fichas na vida pessoal também é uma armadilha: cuidar de uma criança é algo cansativo e nem todas as mulheres nasceram para fazer isso. Eu, por exemplo, não nasci. Been there, done that. Adoro ficar com o meu filho, mas tenho meu limite. Preciso de tempo sozinha, para ler, ter ideias, escrever. Também me divirto fazendo reuniões e pensando em projetos. São coisas diferentes. E para a maioria das pessoas que eu conheço, só tendo um pouco de cada um dos mundos para ser feliz. Falamos aqui também de momentos diferentes da vida: algumas pessoas escolhem ter filhos cedo, outras querem se dedicar primeiro à carreira e depois planejar a família. Mas esquecem que a vida não funciona assim: quem se dedica no início nem sempre vai decolar, quem quer ter filhos perto dos 40 anos nem sempre vai conseguir. E aí, claro, tem que estabelecer prioridades mesmo, seja mulher, homem ou qualquercoisa. Não estou dizendo que seja exatamente a mesma coisa para os dois. Para as mulheres, a questão de ter filhos sempre pesa mais do que para os homens, afinal, nós temos um prazo muito menor para isso. Isso é uma pressão tremenda: nossos corpos são bombas-relógio prestes a decidir quando você não terá mais chances de deixar descendentes.

“É possível se você fizer as coisas ao tempo certo”

O mais importante aqui é escolher quando você terá filhos. Muitas das mulheres que são líderes da geração anterior à minha – Madeleine Albright, Hillary Clinton, Ruth Bader Ginsburg, Sandra Day O’Connor, Patricia Wald, Nannerl Keohane — tiveram filhos entre os 20 e 30 e poucos anos, como era a norma nos anos 50 até os 70. Uma criança nascida quando sua mãe tem 25 anos vai terminar o Ensino Médio quando a mãe tiver 43, uma idade em que, com imersão de tempo integral na carreira, ela ainda tem bastante tempo e energia para avançar.

Mas essa sequência têm sido disfavorecida por muitas mulheres de alto potencial, e dá para entender o porquê. Pessoas tendem a se casar mais tarde agora, e, de qualquer forma, se você tem filhos cedo, pode ter dificuldades em conseguir um diploma universitário, um com primeiro emprego e oportunidades para avançar nos cruciais primeiros anos da sua carreira. Pior ainda, você terá menos dinheiro enquanto está criando seus filhos, e menos habilidade para contratar a ajuda indispensável para ajudar em seu malabarismo.

Dilema tostines. Eu fui pelo lado vintage das mulheres que ela cita aí. Engravidei aos 25 anos, tive meu filho aos 26. Até agora, me pareceu uma ótima escolha. Mas só o tempo irá dizer o quanto isso afetou ou não a minha carreira (volte daqui a uns 20 anos que conto pra você!). Mas meu principal argumento nesse sentido é: existe mesmo tempo certo para cada coisa? Quantas de nós conseguem ser pacientes o bastante para saber esperar que as realizações em cada quesito da vida apareçam uma de cada vez? Só quem ficou 1 ou 2 anos sem trabalhar sabe a falta que faz ter uma vida fora do lar. Só quem trabalha muito e, queria, mas não consegue ter filhos, sabe a dor que isso deve ser.

Eu sou uma entusiasta das técnicas de reprodução assistida (e de qualquer avanço da ciência nessa área), então sou a favor de que as mulheres sejam mães quando quiserem ser – e só se quiserem, não por pressão da sociedade, afinal, nem toda mulher nasceu pra ser mãe e é legal que as pessoas cada vez mais reconheçam isso. Uma das feministas mais interessantes do momento, a francesa Elizabeth Badinter, tem um livro bem famoso sobre esse conflito das mulheres com o trabalho e a maternidade (o nome é justamente O Conflito). Ela cita lá uma pesquisa bem legal mostrando que existem 3 perfis básicos de mulheres: as que nasceram para ser mães e são felizes com isso, as que nasceram para trabalhar e não se completam com a maternidade, e as que precisam balancear uma coisa e outra. Todos eles são válidos e devem ser identificados e respeitados. Então ter tudo não significa o mesmo para todas as mulheres.

Nem para todos os homens, em todas as fases da vida. Quantas vezes você não ouviu a história do executivo bonitão e inteligente que ganhou rios de dinheiro, contabilizou noitadas e viagens divertidíssimas, e aí lá perto dos 50 anos viu que a vida era vazia, sem amor, sem ninguém para jantar junto todas as noites e ficou morrendo de medo de morrer solitário. Devem ter pelo menos uns 100 roteiros de comédias românticas que começam assim. Então é verdade mesmo, women can’t have it all. Porque ninguém pode ter it all. A vida é estabelecer prioridades, e quando você tem que fazer tudo ao mesmo tempo, algum aspectozinho vai ser disfavorecido em algum momento. Como a Anne-Marie Slaughter já está na casa dos 50, dá pra ver bem que ela está naquela época de olhar para o passado e ver que deixou de lado a vida pessoal e agora faz a escolha de se dedicar à família. Eu acho justo. Acho que isso também é feminismo: fazer as próprias escolhas sem medo de ser julgada por isso. Não foi por pressão do marido nem nada. (e se fosse um homem desistindo de um cargo importante, nunca pararíamos para cogitar que fosse por insistência da mulher, é bom notar)

A Veja fez uma matéria de capa uns 2 meses atrás sobre executivas de grandes exmpresas que são mães, contando como elas faziam para conciliar vida pessoal com trabalho. Lendo a matéria, não parecia nada impossível. Só parece que você tem que estar no emprego certo pra isso, no momento certo da carreira e saber administrar bem o seu tempo. Alguns pontos em comum nos depoimentos: todas elas gostavam muito e acreditavam no que estavam fazendo, eram muito boas naquilo e aprenderam a identificar momentos importantes da vida pessoal e não deixar que o trabalho fosse mais importante do que eles – nunca perder uma apresentação de escola do filho, por exemplo. Se em muitas empresas dá para sair 2 horas no meio do expediente para ir almoçar com alguém, também dá para sair 2 horas mais cedo e ir à apresentação do dia das mães – e depois compensar essas horas no dia seguinte. Uma vez conversei sobre esse assunto informalmente com a Miriam Leitão e percebi que ela é do tipo que nunca seria feliz ficando em casa com os filhos, por mais que ame os 2 que ela tem. Eu não acredito que eles achem que ela foi uma mãe ruim por isso (viraram jornalistas). Tudo depende de entender e aceitar a personalidade dela. E várias pesquisas já mostraram que mulheres que ficam em casa com os filhos sofrem mais de depressão – e não necessáriamente são mães melhores.

“É possível, se você casar com a pessoa certa”

A proposição de que mulheres podem ter carreiras de topo desde que seus maridos ou companheiros estejam dispostos a dividir as responsabilidades de criação dos filhos igualmente (ou desigualmente) assume que a maioria das mulheres vai se sentir tão confortáveis quanto os homens de ficar longe de seus filhos, desde que seus parceiros estejam em casa com eles. Na minha experiência, esse simplesmente não é o caso.

Aqui eu piso em terreno ardiloso, minado com estereótipos. De anos de conversas e observações, entretanto, eu venho a acreditar que homens e mulher respondem bem diferentemente quando os problemas em casa os forçam a reconhecer que sua ausência está ferindo uma criança, ou pelo menos que sua presença poderia ajudar. Eu não acredito que pais amem menos os filhos do que as mães, mas homens parecem mais dispostos a escolher seu trabalho ao invés da família, enquanto mulheres parecem mais propensas e escolher a família ao invés do trabalho.

Aqui ela foi fundo e, conscientemente, entrou em um conceito sexista que eu não vejo mais tão enraizado na minha geração. Espero que isso não seja verdade por muito tempo. Hoje, os homens estão cada vez mais colocando a família em primeiro lugar também, e isso é um hábito ou cultura (não sei bem qual definiria melhor) que só tende a mudar, acredito. Mas e jogar para as mulheres a resposabilidade de encontrar o cara perfeito? Já seria demais. Mas além disso, elas ainda tem que agir como o cara que não sente muita falta dos filhos e fingir que tudo bem trabalhar 12 horas por dia e só vê-los no fim de semana? Tudo bem que qualidade de tempo é mais importante do que quantidade. Mas tempo nenhum também é demais.

Eu passei exatamente por essa situação. Só pude ir trabalhar fora porque me sinto realmente confortável de deixar meu marido tomando conta do nosso filho. Foi bom pra mim (para fazer algo diferente, sentir novamente um pouco da vida corporativa) e foi ótimo pra eles, que passaram mais tempo juntos e aprenderam muito um com o outro. Sem a mãe por perto, o pai aprendeu a se virar mais, tomar mais a iniciativa. E passou a ser um pai ainda melhor.

Mesmo assim, preciso confessar que eu ainda sentia falta de passar algumas horinhas por dia com ele ou pelo menos dar aquele beijo de boa-noite. Saber que alguém está cuidando bem do seu filho não exclui automáticamente a importância da sua presença e da vontade de estar perto. E depois, jogar a responsabilidade pela carreira de uma mulher em seu parceiro também me soa um tanto quanto sexista. E por um acaso atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher? O tempo e a história já provaram que essa afirmação não é verdadeira. Não deveria ser obrigatória para o sexo oposto também.

Ufa! Ainda iria longe nessa discussão. Mas em resumo: ela está certa? Sim e não. Acho que ainda temos muito o que mudar em muitos aspectos do mercado de trabalho pra que ele fique mais humano, não só com as mães, mas com todo mundo. Mas acredito que isso vai acontecer aos poucos (a não ser que a economia mundial realmente entre em colapso e não tenhamos mais empregos para ninguém). E acredito também que as mulheres de hoje já não querem mais ter tudo ao mesmo tempo: estão aprendendo cada vez mais a dosar o que é mais importante em cada época da vida e dar menos importância para a carreira. Isto é, para a nossa classe de profissionais mimados e ambiciosos, que valorizam a posição intelectual e o sucesso.

05 de setembro de 2011

Minha conversa com a Miriam Leitão

Semana passada estava batendo um papo sobre maternidade com a minha amiga Miriam Leitão que acho que seria legal dividir aqui com vocês também.

Mentira! Não tô tão chic assim – ela não é minha amiga, eu só cheguei mais cedo pra assistir uma palestra sobre o livro dela Saga Brasileira (sobre a história da inflação no Brasil. Ótimo, por sinal. Só não tão divertido de ler quanto o Crash, sobre a história da economia, do Alexandre Versignassi, que também participou da palestra) e aproveitei pra bater um papo. Que não foi sobre economia, mas sobre maternidade mesmo. Essa segunda parte é verdade, então vamos lá.

Antes, preciso ressaltar que não foi uma entrevista, mas uma conversa informal, então ela não sabe que eu estou escrevendo sobre isso (desconfio que ela não lê o meu blog). Admiro muito a Miriam Leitão – ao vivo ela é ainda mais sensacional: uma memória incrível, o dom da eloquencia e de traduzir qualquer coisa complicada. E como ela, além de uma mulher bem sucedida profissionalmente, também é mãe, então acho que vale prestar atenção no que ela diz.

Eu já escrevi aqui certa vez sobre a vontade que às vezes as mães tem de largar o trabalho e ficar só por conta dos filhos – coisa que muitas guerreiras têm feito hoje em dia. E aí me lembrei de um artigo que a Miriam escreveu pra CLAUDIA em que ela falava contra uma licença-maternidade estendida. E resolvi assuntar.

A Miriam Leitão me contou que, estatisticamente (ela está sempre de olho nas estatísticas, uma memória absurda), essa “volta da mulher aos lares” não está acontecendo. Que as mulheres brasileiras ainda lutam e enfrentam uma boa dificuldade de se inserir no mercado de trabalho, mas cada vez mais encaram esse desafio. E sem desistir da maternidade por causa disso.

E aí me contou sobre a experiência dela de criar dois filhos e ainda virar uma profissional bem sucedida. Ela não estava lá o tempo todo, mas quando estava tinha um tempo de qualidade com os filhos. E quando precisava, carregava os pequenos pros plantões no jornal. Efeito colateral: os dois viraram jornalistas também.

E disse algo com que você talvez concorde: que a solução para boa parte dos nossos problemas (pelo menos nessa fase inicial da maternidade) seria a licença parental, aquela que os escandinavos tem. Metade da licença pro pai – e a mãe volta a trabalhar. Eu sempre achei também.

E ninguém me venha dizer que mulheres são melhores com os filhos do que os homens. A própria Miriam me deu exemplos legais na família dela de homens que são paizões e cuidam super bem dos pequenos. Tente lembrar: você também deve conhecer vários.

Agora a minha opinião: nunca tivemos tantas opções, e nunca foi tão difícil decidir. Escolher ficar em casa com os filhos de fato é para poucas. Pra começar, tem que ter dinheiro suficiente - constatei empiricamente que é impossível cuidar de um bebê e trabalhar ao mesmo tempo. Por isso essas mães não aparecem nas estatísticas, nem  acredito que vão aparecer tão cedo. Depois, tem que ter certeza de que aquela foi uma escolha sua. Sim, porquê dizer que fez isso “porquê era o melhor para o bebê” não é uma boa resposta. Essa aí é a mãe que talvez diga no futuro “eu me sacrifiquei por você”. Nada disso, mocinhas! Pra largar seu trabalho e sua carreira (mesmo que por um tempinho), tem que ter certeza de que é uma escolha sua, baseada no que você realmente quer. Sem se sentir uma bruxa por querer ter vida própria.

Sou a favor da livre escolha da mulher. Isso é o pós-feminismo. Mas quando ela realmente é feita pela própria mulher. Não adianta trocar o homem pelo bebê obrigando a gente ficar em casa. Bebês podem ser tão ou mais tiranos do que um marido machista.

Eu, por exemplo, curti muito meu tempo sem trabalhar, só cuidando do Luisinho. Por algum tempo, achei que queria aquela vida pra sempre. Até o momento em que fiquei com saudades de trabalhar. De ver meu nome assinando matéria de revista. De tentar crescer e me superar intelectualmente. De receber elogio de chefe (bronca não!). De ver o dinheiro caindo na conta.

[Em tempo: é bom deixar claro que muitas vezes o trabalho de "mãe do lar" envolve cuidar da casa também - arrumar cozinha, lavar roupa etc. E pra isso eu não tenho vocação nenhuma. Adoro cuidar do meu filho, arrumar as coisinhas dele, dar banho, comidinha e tudo o mais. Disso eu não me canso. Mas arrumar a casa? Daí batem umas saudades do trabalho intelectual...]

Eu já sabia que o trabalho não me completa por inteiro. Mas acabei descobrindo que a maternidade também não. Preciso de equilíbrio entre as duas coisas para ficar feliz. Não é fácil, mas hoje, com a ajuda de uma babá e do meu marido, consigo conciliar bem as duas coisas, trabalhando em casa, pertinho do meu bebê. Quando contei isso pra Miriam, ela abriu um sorriso: “é, a geração de vocês tem essa vantagem”.

A Miriam é de uma geração antes da minha, de mulheres que tiveram que ralar mais ainda para se colocar no mercado de trabalho (não que hoje seja fácil…). Sei que muitas mulheres que são filhas de mães dessa geração e estão tendo seus filhos agora acham que a mãe passou pouco tempo com elas, se lembram mais da babá e das tias da creche. Mas muitas também se lembram da mãe chegando em casa animada com o trabalho, contando aventuras, histórias de gente interessante que conheceu, de conquistas importantes. Segundo a Miriam Leitão, foi essa empolgação que fez com que os filhos dela decidissem ser jornalistas também (e ambos são hoje ótimos profissionais). Não quero que o meu filho se lembre mais da babá do que de mim. Mas definitivamente, quero que ele se lembre de mim empolgada com a vida e com as minhas conquistas profissionais.

Por isso conclui que sou a favor do meio termo. Antes de tudo, a gente tem que fazer o que nos deixa feliz. Trabalhar ou ficar em casa com o filho (o que também dá bastante trabalho!), não importa. Acredito que hoje, se você tem condições financeiras, dá para arriscar sair um pouquinho do mercado e voltar depois sem grandes prejuízos. Ou ir voltando aos pouquinhos, como eu fiz. E aproveitar da melhor forma essa fase tão gostosa e que passa tão rápido. Principalmente agora que a gente sabe que provavelmente só vai ter 1 ou 2 filhos na vida. Mas é bom ressaltar o mais importante: todas essas escolhas não são privilégio só das mulheres. Já andei conhecendo nas pracinhas e parquinhos alguns pais que também deixam o trabalho para cuidar dos filhos por um tempo. Tente lembrar: você também deve conhecer algum. E em breve, com sorte, conhecerá vários.

23 de fevereiro de 2011

Mamãe não quer trabalhar

É oficial: interrompi a minha licença-maternidade antes dos 6 meses recomendados pelo Ministério da Saúde (mas não pelo Ministério do Trabalho) e voltei a frilar.

E olha… não vou mentir não, tá difícil.

Sempre fui uma daquelas pessoas meio indecisas, que gosta de fazer muita coisa ao mesmo tempo, mas com uma enorme dificuldade de escolher uma só pra me dedicar e fazer bem feito. Eis que uns 5 meses atrás tudo mudou: surgiu uma coisinha a que eu posso me dedicar sem medo de ser feliz e da qual eu tenho certeza que não vou me cansar nunca.

Meu novo objetivo de vida ficou claro: ter um monte de filhos, e depois netos, fazer cursos, viajar, ter mil amigos. Igualzinho à minha avó Elna, a bisa geek daquele post alí embaixo. Enfim, uma vida bem vivida com uma família enorme. Sem muitas cobranças, arrependimentos e angustias. Passando a maior quantidade de tempo possível perto de quem eu amo. Cuidando e recebendo carinho. O emocional à frente do profissional.

Afinal, o que é mais importante nesse mundo?

Mas não, as mulheres de hoje não tem mais coragem de largar a profissão para ficar com os filhos. Nem mesmo quando podem (marido apoiando e tal). Eu não tenho. Você teria?

Outro dia conheci uma mãe de uma menininha de 3 anos numa lanchonete e em pouco tempo de conversa ela me confessou que não queria mais trabalhar. Foi se candidatar a um emprego e o entrevistador perguntou: “qual é o seu objetivo de vida?”. Logo veio à cabeça: “passar o máximo de tempo com a minha filha”. Mas o que ela disse foi: “uma casa na praia”.

Fico imaginando quantas mulheres por aí não sentem o mesmo e não tem coragem de dizer nem mesmo pros maridos. Somos vitimas da nossa própria luta feminista. Nos libertamos dos homens, mas agora somos escravas do trabalho. Ao contrário das nossas avós, desde pequenas somos treinadas pra não depender desses caras com quem a gente acidentalmente se casa. E se acontece de precisamos mesmo da ajuda deles, principalmente financeira, ficamos desesperadas.

Deixar o trabalho de lado pra cuidar dos filhos?

Nem pensar. Imagine o que a sua mãe iria dizer? A minha certamente não aprovaria. Afinal, ela trabalhou tanto pra que eu pudesse estudar e ser independente…

De fato, sabemos muito bem os riscos que as mulheres correm quando passam a cuidar dos filhos e da casa. De ficar fora do mercado de trabalho, de perder a independência financeira, de se tornarem menos provedoras do que os homens (ou nada provedoras), de ficarem sem assunto na mesa de bar.

Eu, por exemplo, que nem sou workaholic (sim, moro em São Paulo e tenho coragem de admitir isso), e tiro férias muito melhor do que trabalho, sinto uma baita falta de ver um dinheirinho caindo na minha conta corrente. E o medo de ficar pra trás no mercado? Ver o pessoal evoluindo na carreira e eu nada. Ficar parada no tempo, que nem um dinossauro. Creda. É apavorante.

Socorro.

Lá se vão uns 30 anos da revolução feminista e aqui estamos nós ainda lutando para equilibrar nossas responsabilidades. O mercado de trabalho sacaneia a gente? Verdade. Ainda temos que lutar pra ganhar salários equivalentes aos deles? Muito. Eleger presidente mulher não significa muita coisa? Necas.

Mas quando o medo de não trabalhar se sobrepõe à vontade real da mulher…  é um saco. A pressão é tão grande, por todos os lados (principalmente a que vem de dentro de mim) que não dá pra resistir. E a gente pega no batente quando tudo o que queria era ficar lambendo a cria o dia inteiro.

É claro que eu não quero passar a vida inteira APENAS cuidando do meu filho. Porque ninguém aqui quer passar o tempo todo fazendo uma coisa só. Mas se você me perguntar hoje qual é a minha coisa preferida nesse mundo, tchan nan, a resposta é bem fácil.

Ainda quero trabalhar e estudar muito, aprender coisas sensacionais, influenciar os rumos do mundo, quem sabe escrever livros de sucesso, ganhar dinheiro o bastante pra comprar um veleiro. Só que nada disso me parece agora realmente mais importante do que ficar com o meu bebê. Às vezes quando eu olho pro meu bebê, me faço a seguinte pergunta: “o que é que eu tava fazendo antes mesmo?”.

Será que é instinto?

Uma amiga que tem uma filha de 4 anos me disse que essa sensação é algo passageiro, um mecanismo natural pra que a gente cuide bem dos filhos. E que depois de um tempo, a mulherada fica morrendo de vontade de fazer qualquer outra coisa. Talvez ela tenha razão e daqui a pouco eu fique desesperada pra trabalhar fora. E pra ter mais assunto pra mesa de bar, além de fraldas e brinquedos e tal.

Peço sinceras desculpas às feministas que lutaram tanto pela minha libertação, mas o trabalho delas não está completo. Ainda temos que lutar pela coragem de admitir o que realmente queremos, sem medo do estigma da dona de casa vazia e anulada. Ser obrigada a ficar em casa não era terrível. Mas ser obrigada a trabalhar também é um porre.

Quem é que me responde: quando é que a gente vai realmente poder escolher?

Eu sei que não é assim para toda mulher. Mas para mim, até agora, ter filhos tem se mostrado bem mais divertido do que trabalhar. E quem é mãe sabe: os pequenos, ao modo deles, já dão o maior trabalhão. Licença-maternidade não é nenhuma mamata: a gente não dorme direito, passa o dia inteiro por conta deles. Quando eles sossegam, corre pra lavar roupas, limpar a bagunça, fazer a comida. Nada de folga. Mas é o trabalho mais legal do mundo. E sim, paga-se muito, mas muito bem (com sorrisinhos, carinho e fofura… que não enchem a conta bancária mas dão uma felicidade…).

12 de novembro de 2010

Alô, seu Ministro?*

Ontem fui abrir umas embalagens de mamadeiras e percebi que todas elas tem o seguinte aviso: “O Ministério da Saúde adverte: A criança que mama no peito não necessita de mamadeira, bico ou chupeta.”

Daí peguei o telefone e resolvi ligar para um certo numero de telefone lá em Brasília. O (61) 3315-2351.

Trim. Trim. Trrrriiiim! Trrrriiiim!

-       Gabinete do Ministro, bom dia.

-       Alô, por favor, eu gostaria de falar com o seu Ministro, por favor.

-       Quem fala?

-       Pode dizer pra ele que é a mãe do Luisinho.

-       Tem horário marcado?

-       Não, mas é questão de urgência nacional.

-       Só um momento.

[momento com musiquinha chata tocando]

-       Alô? (voz de ministro)

-       Alô, seu ministro?

-       Isso, é ele mesmo. Quem fala?

-       Aqui é a mãe do Luisinho.

-      Hum. No que posso ajudar?

-       Bom, vou direto ao assunto. É o seguinte: o senhor tem peitos?

-       Como?

-       Peitos. Seios lactantes. Não tem, né? Deve ser porque o senhor não é mulher.

-       Olha…

-       Tudo bem, ministro. Eu compreendo. O senhor não tem peitos cheios de leite, então acho que não está sabendo como a coisa funciona.

-       Olha, acho que houve uma confusão. É melhor você falar com…

-       O melhor é falar direto com o senhor mesmo. Pra resolver de uma vez esse problema. É o seguinte: acabei de ver uma frase aqui que o senhor mandou colocar na mamadeira do meu filho, mas eu é que quero te advertir de uma coisa.

-       Sim…

-       Seu ministro, como o senhor não está sabendo beeem como a coisa funciona, vou te contar. É assim: os pequeninos querem mamar o tempo todo, ou no máximo de 3 em 3 horas. A gente fica acabada, mas amamenta feliz, porque amamentar é mesmo uma coisa legal e a gente ama aqueles pacotinhos demais da conta. O peito dói, empedra, o bico racha, sangra, vaza leite, uma porcaria, mas a gente se abre de felicidade quando vê os fofinhos de barriga cheia.

-       Certo…

-       Só que aí vem vocês e dizem que o aleitamento tem que ser exclusivamente no peito até os 6 meses do bebê, certo?

-       É…

-       Concordo. Mas se só pode peito e não pode mamadeira, o problema é que aí a gente não fica só acabada. A gente fica louca. LOUCA. Ouviu bem? A mãe tem que ficar lá 6 meses grudada no bebê, sem poder ir nem à padaria sem poder levar o filhote, e em muitos casos – e no MEU caso -, sem poder dormir, porquê o pequeno quer mamar de noite, quer mamar de madrugada, quer mamar de madrugada mais uma vez. E aí vem você e me diz que não pode nem uma mamadeirinha pro pai dar no turno da madruga? Ou de repente uma outra de levinho alí pelo 2o mês pra mamãe poder dar uma idinha ao cinema? Não tô pedindo muito, tô? TÔ??? PELAMORDEDEUS, NÉ SEU MINISTRO? Depois a maioria das mulher ainda tem que voltar a trabalhar logo 3 ou 4 meses depois do filho nascer.  E aí faz o quê pra continuar amamentando o dia inteiro? Deixa os peitos em casa e vai pra rua? Querem que eu fique louca? LOUCA?

-       Olha, entendo, mas fale aqui com a…

-       Não, é com o senhor mesmo. Mas eu vou ser bem legal e vou te dar além do problema, a solução: sabe aquela grana que o senhor ta gastando com essa mensagem aí no rótulo da mamadeira?

-       Não, nós não gast…

-       Então. Pega ela e investe numa pesquisa pra fazer os peitos dos homens produzirem leite também. Eu digo, dos pais, né. Faz isso. Resolve o problema.

-       Desculpe, mas não dá pra…

-       Não dá? Não dá? O que não dá é pra ficar seguindo o que vocês falam. Olha, o problema está aí e a solução também.

-       Isso é um absurd…

-       Desculpa, seu ministro. Agora não dá mais pra gente conversar, vou ter que amamentar.

Tu… tu… tu.

*Conversa fictícia. Mas o numero de telefone lá em cima é verdadeiro. E aí, alguém vai ligar?